Primavera
Primavera de Botticelli (imagem da Google)
ADÁGIO
Tão curta a vida e tão comprido o tempo!...
Feliz quem o não sente.
Quem respira tão fundo
O ar do mundo,
Que vive em cada instante eternamente.
Miguel Torga
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Há escritores grandes na humildade... Mia Couto é-o certamente. (Adágio)
O menino que escrevia versos
Mia Couto
De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?
(VERSOS DO MENINO QUE FAZIA VERSOS)
— Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse
criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o
esforço de alpinista em topo de montanha.
— Há antecedentes na família?
— Desculpe doutor?
O médico destrocou-se em tintins. Dona
Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso
por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias.
Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira
tinha sido em noite de núpcias:
— Serafina, você hoje cheira a óleo
Castrol.
Ela hoje até se comove com a comparação:
perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que
fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão
período de rodagem. O filho fora confecionado nesses namoros de unha suja,
restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor.
Tudo corria sem mais, a oficina mal dava
para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos
recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem
pestanejo, a autoria do feito.
— São meus versos, sim.
O pai logo sentenciara: havia que tirar o
miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más
companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as
meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se
passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a
vida do homem se queda em ponto morto?
Dona Serafina defendeu o filho e os
estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.
— O médico que faça revisão geral, parte
mecânica, parte elétrica.
Queria tudo. Que se afinasse o sangue,
calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe espreitassem o nível do óleo na
figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia
era pôr cobro àquela vergonha familiar.
Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem
deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo.
Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
— Dói-te alguma coisa?
—Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta,
sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver,
doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:
— E o que fazes quando te assaltam essas
dores?
— O que melhor sei fazer, excelência.
— E o que é?
— É sonhar
Serafina voltou à carga e desferiu uma
chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos?
Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho
aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o
braço da mãe.
O médico estranhou o miúdo. Custava a
crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele,
modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente,
coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a
começar. O doutor o interrompeu:
— Não tenho tempo, moço, isto aqui não é
nenhuma clinica psiquiátrica.
A mãe, em desespero, pediu clemência. O
doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver
se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e
guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse
o paciente.
Na semana seguinte, foram os últimos a ser
atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais
versos? O menino não entendeu.
— Não continuas a escrever?
— Isto que faço não é escrever, doutor.
Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida —
disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo
era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento
urgente.
— Não temos dinheiro —
fungou a mãe entre soluços.
— Não importa —
respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E que
seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido
tratamento. E assim se procedeu.
Hoje quem visita o consultório raramente
encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está
internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico
que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando
silêncios:
— Não pare, meu filho. Continue lendo...
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
ANTÓNIO RAMOS ROSA
A FESTA DO SILÊNCIO
Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.
Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.
Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.
António Ramos Rosa, Volante Verde
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
São Leonardo da Galafura
À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.
Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.
Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!
Miguel Torga
À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.
Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.
Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!
Miguel Torga
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
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