Primavera

Primavera
Primavera de Botticelli (imagem da Google)

ADÁGIO


Tão curta a vida e tão comprido o tempo!...
Feliz quem o não sente.
Quem respira tão fundo
O ar do mundo,
Que vive em cada instante eternamente.

Miguel Torga































domingo, 30 de maio de 2010

Ei-lo...no gesto e na figura!


Ademar Santos


Há uma semana, eu não queria acreditar! Mas afinal era verdade: o Ademar partira... mesmo!
Nós tínhamos o projecto da Revista da escola "em mãos"... Qualidade era a sua palavra de ordem!... Nada será igual sem o Ademar.
Sempre cavalheiro e atencioso com aqueles que ele estimava; implacável ou distante com os demais...
De vez em quando, ainda lhe oiço as gargalhadas sonoras e provocadoras!
Ter sido sua Amiga foi um privilégio de que me consciencializo mais a cada dia que passa...
Foi nobre até ao fim.

Improviso (mais um) para pedra tumular...

Se renascesse
repetiria tudo outra vez
e acompanhar-me-ia ao piano
sem partitura
que já me saberia de ouvido
ou de cor
voltaria por exemplo a escrever sonetos
quase perfeitos
para a Deolinda
que virginava entre as capelas da Sé
e para a Sameiro
de quem guardo ainda uma fotografia
naturalista
a preto e branco
e para a Conceição
que me acompanhava sempre em silêncio
ou em latim
se calhar já morreram
ou continuam ainda a ler-me em segredo
já sexagenárias
se renascesse
repetiria tudo outra vez
e acompanhar-me-ia ao piano
sem partitura
que já me saberia de ouvido
ou de cor
e regressaria sempre
à lenta memória das teclas
e dos dedos
que tocaram todas as palavras.


Ademar
19.05.2010

Se os Poetas Dessem as Mãos

Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia,
cairiam as grades das prisões
que nos tolhem os passos,
os arames farpados
que nos rasgam os sonhos,
os muros de silêncio,
as muralhas da cólera e do ódio,
as barreiras do medo,
e o Dia, como um pássaro liberto,
desdobraria enfim as asas
sobre a Noite dos homens.

Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia.


Fernanda de Castro, in "Ronda das Horas Lentas"

domingo, 23 de maio de 2010

Foi há um ano... estranha coincidência!?

"Improviso para assistir a morte...



"

in Abnoxio

Última intervenção sua, Ademar, para o Mundo...

"
maio 22, 2010
Informação...
Alguns amigos, estranhando o silêncio, perguntam-me se morri. Não tenho passado bem, mas não morrri. Espero ressuscitar...
A todos, agradeço a preocupação...

Posted by Ademar Santos at 05:16 PM Permalink Comments (0)

"
in Abnoxio


Calou-se para sempre a voz honesta e incómoda!
Calou-se para sempre o Poeta!

Requiem pelo meu Amigo Ademar!




NUNCA associei o Requiem de Mozart à morte, mas sim à elevação espiritual e à grandeza humana.
Hoje, é a minha sentida homenagem a si, Ademar, que eu admirava e com quem aprendi muito...

Estou consternada... Ademar, os grandes não morrem!!!!

sábado, 22 de maio de 2010

Majestade...

Um serão...

Um serão...

Canção do Amor-Perfeito

Eu vi o raio de sol
beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.

Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.

Bem no regaço da lua,
já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço.

Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'

domingo, 16 de maio de 2010

Destino

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta «Florece!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai!, não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino .
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.


Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

Primaveril

o céu é tão azul quando te vejo
as nuvens por magia se desfazem
os campos de repente florescem
as montanhas ganham outro colorido
e exalam adormecidos perfumes
nas urzes e nas giestas
na salva, no rosmaninho
e o meu coração voa
sem precisar de caminho
fica leve alvoroçado
como uma borboleta
por te sentir ao seu lado.
apetece-me correr
abrir os braços, cantar
em coro com os ribeiros
que o meu amor chegou
num dia de primavera.

H.M.