Primavera

Primavera
Primavera de Botticelli (imagem da Google)

ADÁGIO


Tão curta a vida e tão comprido o tempo!...
Feliz quem o não sente.
Quem respira tão fundo
O ar do mundo,
Que vive em cada instante eternamente.

Miguel Torga































quinta-feira, 31 de outubro de 2013

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A canção da vida 

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

                       Mário Quintana, Esconderijos do Tempo, 1980.

Eis um ADÁGIO...




quarta-feira, 23 de outubro de 2013




A Camilo Castelo Branco

Passou, meu Deus, foi um sonho
De que é doce o despertar,
As negras, feias visões,
Já nem me quero lembrar,
Tornei a achar o remanso
Do meu tão doce sonhar…

Volto quase à paz serena
Dos meus dias infantis;
O meu anjo me segreda
Mistério… que não se diz, 
Vejo o futuro coroado
Pela esperança a que me afiz.

É muito para a minh’alma:
Importa da vida o céu:
Sobre os falsos dons do mundo
Lançarei cerrado véu. 
Das ambições a mais nobre
É chamar-te um dia meu.

Ana Augusta Plácido
Comédia humana

Literatos! Chorai-me, que eu sou digno
Da vossa gemebunda e velha táctica!
Se acaso tendes crimes em gramática,
Farei que vos perdoe o Deus benigno.

Demais conheço a prosa inflada, enfática,
Com que chorais os mortos; e o maligno
Desafecto aos que vivem… Não me indigno…
Sei o que sois em teoria e em prática.

Quando o avô desta vã literatura
Garret, era levado á sepultura,
Viu-se a imprensa verter prantos sem fim…

Pois seis dos literatos mais magoados,
Saíram, nessa noite embriagados,

Da crapulosa tasca do Penim.
                     Camilo Castelo Branco

segunda-feira, 21 de outubro de 2013


NUNO JÚDICE

A Vida

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua 
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam 
quando não se espera, o atraso na preocupação 
dos teus olhos, e as nuvens que caíram 
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.

Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento"

domingo, 20 de outubro de 2013



PRIMEIRA EDIÇÃO DA OBRA

sábado, 19 de outubro de 2013




Pudesse Eu Contar as VezesPudesse eu contar as vezes que ferrei os cantos da boca imaginando que eram teus os dentes que assim me amavam; que eram os teus lábios aqueles que, nessas ocasiões, eu mordia. Lembras-te de uma frase que costumavas citar, por tê-la escutado em qualquer parte, ou lido, já não sei bem? Aquela que dizia 
- A minha anatomia enlouqueceu; sou toda corarão. 
Pois é como me tenho sentido, mais ou menos assim, com a anatomia enlouquecida, sem saber já quais são os meus dentes ou qual a minha boca; como se cada pedaço meu não fosse mais do que saudade de ti: o desejo de te voltar a ver, de te cobrir outra vez de beijos - olhos, boca, rosto, o corpo todo de beijos -, de te abraçar e sentir o teu cheiro, de tomar nas mãos o ramo crespo dos teus cabelos e inalar a fragrância do teu pescoço. Possuo agora, em mim apenas, nos limites da minha topografia, toda a exaltação dos nossos corpos e sinto que não chego para tanto porque a soma de nós dois excedeu sempre a existência física dos nossos corpos. É como se rebentasse por dentro e tivesse de esticar a alma - ou lá o que é - para me ser possível reter ao menos um pouco do que daí sobrou. 

Manuel Jorge Marmelo, in 'O Amor É para os Parvos'


MANUEL JORGE MARMELO


segunda-feira, 14 de outubro de 2013


Lançamento dia 19 de outubro de 2013, 17 horas, Casa das Artes, Porto 

MANUEL JORGE MARMELO, Entrevista